CANTO VI
Reações Oblíquas
Olá, querido Cartesiano Torto, como
está? Sentiu saudades? Pois bem...
De qualquer forma, é chagado o
momento de cantar; ou − ao menos −, de tentar costurar harmonias... ainda que
por cantarolares chinfrins e tortuosos (como sempre). Antes, porém, um pequeno
recado a toda multidão de leitores ávidos que acompanham, por aqui, nossos sonoros
cantos:
prezados, a bem da verdade, a
indagação a respeito da saudade foi somente uma brincadeira; estratagema para
iniciar o texto. Em outras palavras, estou certo de que o provecto Cartesiano
que escreve comigo pouco se aguenta quando o assunto é a saudade que ele sente
de mim. A estima do Cartesiano é tanta que, se passamos muito sem conversar –
garanto −, o homem grisalho perde até algo de sua vitalidade – a cor de sua tez
muda e seu ânimo reduz −. Imagino que deva perambular por sua casa envolto em
suspiros, com caminhar soturno e encurvado enquanto aguarda as estimulantes
missivas deste jovem poeta metido também à ensaísta [by the way, obrigado pelo Baudelaire].
A despeito disso, estivemos – os dois canalhas – juntos, de corpo presente.
Quer dizer, em razão das festas de fim de ano, nós dois, que moramos em estados
distintos, encontramo-nos pessoalmente. Só a título de curiosidade – e também
para servir como marcador de tempo −, enquanto escrevo as primeiras linhas do
CANTO VI, nosso querido Cartesiano dirige pelas BR's deste nosso país seguindo
para o Sul, rumando para sua casa. Pois então, diante das circunstâncias de final de ano (e suas festas familiares),
tivemos ocasião de reduzir algo da saudade; mas está bem, não foi o suficiente;
nunca é.
Um outro ponto: fiquei com a
impressão de que nós dois não conseguimos conversar tudo o que “precisávamos”.
Deixe-me explicar melhor: diante de tantas pessoas – que assim como eu, pouco
estão com o Cartesiano, tendo oportunidade de vê-lo somente uma vez ao ano −, é
complicado monopolizar/encadear um diálogo que trate de filosofia [mesmo a que
gostamos por aqui, a saber: a provinciana, as elucubrações de boteco]. Nesse
caso, procure imaginar, amigo leitor, o efeito provocado por sentenças tais
como “Razão Prática”, “Razão Clássica”, Bourdieu ou Russell nos demais
interlocutores presentes na ceia de natal. Ora, em uma das poucas vezes em que
puxamos assuntos semelhantes aos elucubrados por aqui, escutei algo como “ah,
lá vem vocês com essa filosofia... tenham dó, vamos logo parar com isso; falem
de outra coisa”. Paciência. No mais, incidentes
desse tipo não são novidade nem para mim nem para ele. Laconicamente, somos
mesmo Canalhas e – a depender de quem observa −, esquisitos, estranhos e
inconvenientes... Fazer o quê? Cada um que converse sobre o que mais lhe
apetece. Falando nisso, a tal de Virgínia ainda namora o Vini Jr.? Ou será que
essa arrumação já deixou de produzir cliques?
Ora essa... é claro que há exagero
no que digo – como sempre −. Com efeito, nossos familiares e amigos não são,
assim, tão afeitos à filosofia, mas isso não nos impediu de conversar. Pois
então, tivemos ocasião de palavrear, sim, algo de nossas reflexões; mas está
bem, não foi o suficiente; nunca é.
Recado dado, vamos ao texto. Para tanto, que tal elaborar uma pequena cena? “No mais... gerais... ”.
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Imaginemos o seguinte cenário:
primeiro, temos dois comerciantes, digamos, dois vendedores ambulantes que
trabalham juntos. São eles: Sam e Jonathan. Mais que mercadores, ambos são
grandes amigos que, por confiar no potencial de um produto – eles são
“vendedores de novidades” −, empreendem juntos nos ramos do comércio. “Apanham”
juntos, também, neste ramo. Quero dizer, como a mercadoria que buscam negociar é
bastante nova, ao tentar vende-la às pessoas, recebem vários nãos e, com isso,
experimentam – novamente juntos −, um desencorajador sentimento provocado por
diversas negativas, bem como “portas na cara”. Com outras palavras, os
clientes, ao que parece, não desejam e tampouco se importam com as tais
“novidades” ofertadas por Sam e por Jonathan (este último é quem mais sofre com
isso, justamente por ser mais sentimental). Segundo, como ninguém é de ferro, o
fracasso em conseguir vender as “novidades”, aliado às sucessivas e
intermináveis negativas – bem como portas batidas −, termina por esmorecer os dois
amigos. No fim, aquilo que antes era uma grande aposta para ambos, acaba
provocando cansaço, desanimo e briga... É muita mercadoria e pouca venda; quem
poderia culpa-los. É muito dinheiro investido para tão pouco retorno e, então,
diante do chão duro da realidade, diante da desilusão desencadeada pela falha
em vender, Sam e Jonathan brigam, discutem e rompem – tanto o contrato de venda
em sociedade como a amizade −. Pois é, o que foi uma grande ideia passa a
simbolizar, então, um gigantesco fracasso.
Mas calma lá, comércio é assim
mesmo. Ora essa, se ainda não deu certo, se a mercadoria ainda não “pegou”, não
significa que a ideia deve morrer, que a(s) “novidade(s)” não prestam. Nesse
sentido, talvez seja necessário um pouco mais de paciência, de perseverança e de
resiliência... assim, quem sabe, a mercadoria deixará o estoque e cairá nas
graças dos compradores; com isso, Sam e Jonathan mostrarão como são bons de
ideia, como são bons de comércio, como, juntos, são excelentes vendedores – além,
é claro, de grandes amigos −. Mostrarão, entre outras coisas, que a amizade
vale mais que uma pequena briga – mesmo que um tenha ofendido o outro, mesmo
que um tenha berrado com o outro −. Que uma grande ideia, quando regada e
cuidada, pode produzir a felicidade em consumidores que, inicialmente, nem
sabiam o quanto desejavam aquilo que lhes é oferecido. Bom, ao menos é a essa
conclusão a que chegam Sam e Jonathan. Assim, depois de brigar, depois de um ou
dois berros, voltam a conversar amigavelmente. Num dado momento, enquanto falam
das desventuras que vivenciaram juntos, Jonathan indaga a Sam: “Você acha
que é justo machucar um homem em razão de um proveito maior?” (aqui, pense,
por exemplo, em Maquiavel ou em Raskolnikov).
Você acha que é justo machucar um homem em razão de um proveito maior? A pergunta é feita, assim, no meio do corredor de um prédio – Sam e Jonathan moram no mesmo condomínio, mesmo andar, vizinhos de porta −. É quase uma da manhã e, a despeito disso, os dois conversam de modo acalorado – como comentei, até grito houve no meio do palavrório −. “Você acha que é justo machucar um homem em razão de um proveito maior?” por outro lado, já foi uma frase dita com mais calma e em tom amigável... Tom amigável, sem dúvidas, mas já no início da madrugada e, lembre-se, no meio do corredor do prédio... ou seja, prato cheio para incomodar a outros habitantes. Incomodou! Esbravejando, um outro morador deixa o conforto de sua casa a fim de se juntar à conversa dos dois. Da porta do seu apartamento, o homem – trajado em seu pijama e com cara de poucos amigos −, chama a atenção destes dois inconvenientes: “isso são horas?”, ele pergunta. É Sam quem responde: “é que o amigo aqui perguntou se eu achava justo machucar um homem se, com isso, atingisse um proveito maior”. “Ah, parem com isso. Já passa das 1h e tem gente que precisa trabalhar de manhã, vão logo dormir”, diz o senhor de pijamas. “O senhor queira perdoar meu amigo” novamente é Sam quem responde, “É que ele está sendo meio filosófico”. O de pijama murmura algo, dá de ombros, vira as costas e bate a porta na cara dos vendedores de novidades.
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Easter-eggs sem fim em minha pequena descrição...
deixemos disso e vamos logo ao que importa. O cenário – para variar −, não é
meu. Tirei (de memória) do tal En Duva Satt på en Gren och Funderade på
Tillvaron (2014); Roy Andersson. Como puxei o trem de memória,
penso que a cena não é exatamente como eu a descrevi, mais o essencial nela é
por aí mesmo, não tem muito o que inventar. Se tento descreve-la, é em razão
daquilo que ela representa, a saber: Você acha que é justo machucar um homem
em razão de um proveito maior? E isso é lá pergunta que se faça? Para dizer
de outro modo, será que a madrugada de um dia de semana é o espaço adequado
para comentários filosóficos? Afinal, amanhã é dia “normal”, de trabalho, ora
essa. Tem gente que precisa dormir! De
maneira semelhante, o que adianta
debater Razão no meio de um churrasco, em? Coisa mais chata esse negócio... e
para quê? De que serve pensar nessas coisas? Em certo sentido, o filósofo que
não tem cabeça para os negócios precisa ser internado, e já! Justamente porque
perdeu a capacidade de produzir algo que realmente valha para a sociedade de
mercado. É a acumulação, é o materialismo, são os influenciadores que importam.
Então, por isso, viva à sociedade do desempenho, viva os influencers, viva aos
cliques e a quantidade exorbitante de dinheiro que o relacionamento da Virgínia
é capaz de produz. No mais, filosofia sempre foi coisa de vagabundo mesmo,
coisa de gente que não tem nada importante para fazer e, por isso, tem tempo
para pensar (no caso grego, sociedade hierarquizada que permitia o ócio àqueles
abençoados pela Fortuna). Dane-se o pensar e viva à mercantilização/publicização
das vidas privadas/alheias e viva o seu presentismo! Afinal, pensar não
é bom e nem produz nada... ao menos, nada que valha.
(...) a superficialidade da vida moderna, com seu materialismo desenfreado, levaria à rejeição do pensamento, da reflexão, da complexidade. Para Andersson, os indivíduos modernos temeriam justamente experiências que perduram e fazem pensar, o que talvez explique a simples rejeição ou os usos descabidos, inconsequentes e superficiais de referências filosóficas ou literárias. (...) O controle obsessivo do tempo talvez possa ser compreendido como um temor excessivo à morte, o que pode ser, por sua vez, explicado pela recusa da filosofia e da poesia como formas de discurso centrais para tematizar a historicidade e a finitude humana.
HISTORIADOR, FOTÓGRAFO DA MORTE; Douglas Attila Marcelino.
“No mais das vezes, o melhor mesmo é fazer sem pensar. Na vida, precisamos também acionar o modo automático... pensar não é bom”. Pois bem, Cartesiano, tal sentença me foi dita por um psiquiatra. Um homem da ciência e pautado na razão... disse-me que o melhor era mesmo viver no modo automático; depois disso – naturalmente −, troquei de médico! Não me leve a mal, querido, a coisa não é assim tão oito ou oitenta: bem sei que pensar por pensar, não dá mesmo muita coisa; afinal, a fé sem obra é morta. Mesmo assim, ouvir de um médico (de quem “deveria” auxiliar, por meio das drogas certas, minhas crises de angústia) que o melhor seria viver no modo automático... tenha dó, foi demais para mim. Eu, um amente da saberia e do pensamento aconselhado ao não pensar; cruzes! No fim das contas, somos mesmo entusiasmados por brumas de pensamento, amantes/amigos da sabedoria; filósofos, sim; mas não somos sábios. Podemos almejar à sabedoria e, por isso, permanecer próximos a ela – e afastados de qualquer um que nos aconselhe o não pensamento −, mas sábios, isso já é outra coisa. E é outra coisa porque, ser sábio... nossa!, o buraco aí é muito mais embaixo. Para dizer de uma vez, assim como Russell, lamento que nós, primatas falantes, sejamos incapazes de alcançar a razão. Mesmo assim, não pensar?
Onde está o sintoma? Onde está a patologia? Ele sofrerá de fato, morrerá de fato, e jamais será amado, com toda evidência, como o teria desejado. E então? Resta-lhe enfrentar isso, aceitar isso, superar isso, se puder, em vez de fugir. Sofre com isso? Mas onde se viu que todo sofrimento seja patológico? Que todo sofrimento seja nefasto? Ele o é, se impede de viver ou agir. Mas se ele ajuda? Se impele a isso? Se é fator de revolta ou de combate? Vai-se renunciar a pensar, porque isso angustia? A viver, porque isso causa medo? A amar, porque isso causa dor?
− André Comte-Sponville.
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Caro
Cartesiano, preciso confessar-lhe o seguinte: enquanto redigia o canto IV, buscando
alegorias a fim de melhor traçar concepções acerca do Sapiens racional
(ou pouco racional), o fiz sem considerar qualquer que fosse o conceito
de RAZÃO; em outras palavras, sem definir qual acepção do termo que utilizava durante
a escrita da “epístola” (erro meu!). À vista disso, o senhor tem toda razão
quando – com tamanha maestria e refinada ironia −, puxa aqui a orelha deste Cabeça
de Santo que agora responde. Quero dizer, certamente faltou-me coerência e,
como consequência, terminei por misturar Jesus com Geleia/Push e
Puxe. Com efeito, e em busca de uma maior conformidade direi: nosso
admirado Russell [tio e sobrinho o estimam], faz troça da pretensão humana e de
sua pertença primazia racional, observando que o mundo real − com suas guerras,
seus preconceitos, seus fanatismos e suas ideologias −, desmente a autoimagem
de “Homem Racional”. A despeito disso, faz a crítica dentro do próprio campo do
racionalismo clássico, e não fora dele. Concluindo (corrija-me caso eu esteja a
escrever abobrinhas), Bertrand Russell permanece acreditando na razão
universal e é fiel/coerente com isso... porém, lamenta que os humanos não estejam
à altura de tal concepção de razão. Melhorou?
Que
você tenha encaixado minhas palavras no conceito da Razão e Habitus em
Bourdieu, faz todo sentido [também pudera... O Cartesiano es fueda; o
Cartesiano es fueda pakarai; puta que pariu, o Cartesiano]. Enfim, para o
autor que você trouxe a nossa conversa, não existe razão fora da prática social
— toda forma de pensar e agir está, por isso, situada em contextos históricos,
em relações de poder, em corpos que vivem e aprendem no mundo −; concordo. Não
creio, inclusive, que seja possível dissociar uma coisa da outra, e logo
falarei mais sobre isso. Explicando: Razão Universal (que eu ainda acho que é
coisa de europeu, assim como a disciplina para qual dedico minha vida),
funciona e é mesmo belíssima no papel; bem como, para explicar o movimento dos
corpos, a gravitação dos planetas, o resultado de equações matemática e suas implicações;
a produção de insulina e/ou as curvas aparentes da nivelação de dopamina
durante o processo de adaptação a alguns ansiolíticos. Todavia, dê-me novamente
sua mão e venha comigo, Cartesiano... deixe-me tentar elaborar algo por aqui. Veremos
se assim entramos em concordata com relação aos termos, sem que palavreemos
feito rotos ébrios, embolando línguas a amalgamar alhos com bugalhos.
Dizem
por aí que quando Freud – já reconhecido/famoso – e Jung estavam em viagem aos
Estado Unidos (convidados por universidades), aquele disse a este o seguinte: mal
sabem eles que ao nos convidar, convidaram também sua própria inquietude... nós
estamos indo e lavamos conosco a Peste! Isso dito, pergunto, de qual Peste
fala o nosso vovô da psicanálise? Bem, respondo, o médico austríaco está
chamando atenção para o fato de que nós, seres humanos racionais, não somos “donos
da nossa própria casa”. Dito de outra forma, “quase” não controlamos nossas
ações, nosso pensar e, por conseguinte, nosso agir. Assim, transmitir a Peste
é – eu imagino −, lançar luz às circunstâncias/existência do Inconsciente...
Inconsciente que nos faz reféns; Inconsciente extremamente maior
e mais potente que qualquer pequena fresta de consciência que, porventura, vez
por outra mostra-se a nós e àquilo que nos é dado perceber. Portanto, bem no
momento histórico em que o pensamento ocidental mais arrotava controle,
Freud vem colocar o dedo na ferida e indicar a submissão de todo ser a
algo aterrador, ou seja: o Inconsciente. E, naturalmente, a falta de
controle assusta mesmo; amedronta, apequena, desespera. Pera lá... acho que já
assisti a esse filme antes.
Acontece que nos idos do XVI para o XVII – período de enorme transição −, três indivíduos – para dizer o mínimo, inconvenientes − já transmitiam ao mundo ocidental A Peste (não a que veio depois, com Freud; mas ainda assim, Peste). Carregaram-na, fizeram-na disseminar e... que a sociedade lide com a infecção, bem como com as consequências advindas dela (cada qual que descasque o seu próprio abacaxi, lidando com o desamparo da forma que melhor aprouver). Nesse caso, Nicolau [que tinha uma flauta e sua flauta era de pau; e seu pai sempre dizia...] Copérnico, Giordano Bruno e Galileu Galilei foram os portadores do desastre. Incautos, retiraram os Sapiens do centro do universo, arrancando deles [de nós] qualquer que fosse o caráter de “criatura especial”, engendrada/arquitetada por um procedimento que é fruto de um Criador e compõe Sua Criação. Ora essa, que um deles tenha terminado na fogueira e outro – seguindo os devidos processos legais da época −, preso in perpetuum na sua própria casa, enfim, é outra conversa. Nesse momento, perceba o seguinte: foi a razão (universal/clássica) quem permitiu a tais pensadores as conclusões a que chegaram. No entanto, as implicações/os desdobramentos de tais resultantes, seus efeitos diante do horizonte de expectativa de suas respectivas épocas – nesse caso −, já é outro tipo de razão (ou não razão). Acaso, fortuna, contingencia, vicissitude... Ao fim e ao cabo, “Hiroshima e Nagasaki não foi culpa da quebra do átomo”, mas é válido separar uma coisa da outra?
Somos,
meu querido tio, teimosos e insistentes. A propósito, foi você quem me ensinou
(puxando Millôr Fernandes) que “dessa vida, só me tiram morto”; mantra que − tal
como você − passei também a entoar e a cantarolar. Sendo assim, digo que abraçar
o absurdo, pular de ponta nos oceanos da contingência e do acaso, não é
o mesmo que cruzar os braços e – uma vez que não tenho escolha, já que não sou
eu o dono de minha própria “casa” −, deixar a vida passar como se eu nada
pudesse fazer diante do silêncio do mundo. Abraçar o Absurdo, nessa
perspectiva, já é uma escolha e também uma reação a tal silêncio! Reagir
através da lucidez, encarar o caos que nos assombra, reagir! Escolher ainda que
“sem escolha”! Contraditório? Nesse caso, deixo cantar o nosso saudoso conterrâneo:
“Ó meu Pai, dá-me o direito de dizer coisas sem sentido; de não ter que ser
perfeito. Pretérito, sujeito, artigo definido (...). Virar os dados do
destino, de me contradizer, de não ter meta. Me reinventar, ser meu próprio
Deus; viver menino, morrer poeta ”.
A felicidade deve menos à coragem do que à sorte; menos, mesmo, à sabedoria do que à sorte. A etimologia diz, a vida o confirma: ser feliz é sobretudo ter a felicidade (a sorte) de sê-lo. Não que a vontade não mude nada, nem a razão. Mas a vontade não pode tudo; a razão não pode tudo. E quem escolhe tê-las em maior ou menor grau? Quem escolhe a si? O acaso decide: é isso a que os gregos chamavam o destino, a que chamamos a sorte quando ela sorri. Que ela não basta, cada qual o sabe, mas quem poderia passar sem ela? A vida decide: o horror decide.
− André Comte-Sponville.
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No
ponto de vista deste Canalha Lúcido, meus quadros (supracitados), estão em
comum acordo com o seu:
[(i)
Debate (ou dialética entre dois canalhas; ou ainda maiêutica
provinciana): intercâmbio intelectual e rigoroso que
envolve o confronto e a discussão de argumentos coerentes e embasados (...)].
Assim
também, imagino (e espero) não estar me “[absolvendo/dispensando] das
consequências ou [atenuando] a frustração de [meus] tropeços. [Remetendo-me, destarte]
à tese central do síndico da MPB [em que] "tudo é tudo e nada é
nada". Pelo contrário: Razão Universal/Clássica ou Razão Pura/Habitus? proponho:
ambas! Amálgama, mistura! Com efeito, não enxergo mesmo a possibilidade de
afasta-las. Quer queira, quer não, toda ciência é política... ainda que não
tenha sido intenção de Einstein contribuir para o genocídio de tantos civis. [Portanto,
rótulos como ocidental, eurocêntrico, americano, branco, rico, colonizado,
utilizados no introito, nada mais seriam que mera erística para invalidar o
oponente de saída.] Discordo com absoluta veemência. Em momento algum meu
intento foi o de invalidar e/ou descredibilizar os feitos destes pensadores
através de qualquer epíteto. O que busquei fazer “com tantos rótulos”, é um
exercício de lucidez (trata-se também do Não Dito;
conceito do historiador Michael de Certeau; A ESCRITA DA HISTÓRIA; Cap. 01). Quero dizer, o que tem que ver o fato de Russell
ser Francês e Conde? Que tem isso com sua obra filosófica? Tenha dó,
Cartesiano, você não vê mesmo relação? (Eu sei que vê. Mas você dirá, talvez, E
daí?). Daí, que faz diferença! Claro, não invalida e nem diminui sua obra,
mas a acaso que colocou Bertrand Russell em seu lugar é sim relevante, e deve
ser considerado. Ora, crescer em uma casa cheia de livros... ter acesso a
eles... não se preocupar com suas refeições (moro sozinho, meu caro, e isso − alimentar-se
com qualidade −, é um dos maiores desafios de minha vida adulta). Me pego
pensando se, ao se levantar pela manhã, a mesa do café do Conde Russell já não
estava posta, esperando-o. Só isso já faz diferença. Já imaginou que delícia?
Levantar-se pela manha e ter uma mesa de café posta, caprichada e feita com
zelo? Sonho meu!
E
então, deu para acompanhar o porquê dos rótulos (ou dos não-ditos)?
Bem, com relação aos seus pontos, preciso ainda comentar o seguinte: [(i.1)
Foco na questão fundamental, qual seja]: rapaz, isso será, para este humilde
Canalha, um enorme desafio. Com poucas palavras, eis que minha cabeça pensa por
digressões... cheia de aberturas, desvãos e curvas... sendo bastante complexo
seguir uma linha “reta”; daí uma das razões que explicam minha predileção pelos
ensaios. Por fim – já escrevi para um demônio, penso que já basta para um canto
só −:
[Se
sim, mistura ciência com pseudociência (de fins politico-ideológicos
[imagino que tenha dado para notar que eu não consigo separar os dois]) e
pior, coloca o caro Cartesiano aqui como um seguidor cego e
obtuso só de fórmulas e equações.]:
ora, eu jamais pensaria tamanha asneira; só estava mesmo cutucando meu par,
também Canalha, porém grisalho. De todo modo, te amo demais para
conceber de você tais excrecências, Estratego. Só não fico repetindo isso
porquê, nesse caso, você ficaria mais convencido e arrogante do que já é! Logo,
amo muito você, mas a quem perguntar, negarei...
Mas
nem tanto...
Com
carinho, um beijo florido.
− Canalha Lúcido.




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