quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Livro

Illustration created with the help of AI (Gemini)



I - Jusante 

  • Remanso


Passava lânguido pela sala ainda deixando o rastro do deslize pela geladeira em busca de provisões, quando foi fisgado. A voz era um trovão baixo, soturna, pontuada por um sotaque sulista que parecia carregar o peso e a forma de nuvens raras. Na tela, o homem de terno e óculos escuros à noite não apenas falava, remava o tempo. Lucio orbitou a TV como quem cai num remanso de rio — aquele silêncio enganoso que esconde a força da correnteza logo abaixo.

Enquanto seus dentes cravavam na carne da maçã argentina, a mão direita, em um gesto autômato, subia ao couro cabeludo num sestro, uma cicatriz invisível de um tombo de bicicleta na infância, quando a sensação de ter o crânio partido abriu uma fenda por onde suas idiossincrasias também passaram a vazar. Como uma tranca que desafia o juízo, ele tateava o próprio osso, checando de novo e de novo se ainda era sólido em meio àquela inundação sonora.

O homem na TV era Itamar; Itamar Assumpção, o Nego Dito, o Beleléu — uma entidade que parecia transbordar-se em si mesma. Itamar dizia que, quando estava prestes a afogar-se no próprio excesso, foi içado por Ataulfo Alves, e aquele disco vinha como o bote salva-vidas onde cantava umas poucas das mais de 320 canções do filho do “Capitão” Severino, de Mirai. Naquele instante, Lucio foi tomado por um deslocamento de ar intrujão vindo da janela, que num átimo, empurrou-o para outro “Capitão”, “Capitão” Magela, de Pirapora. Mais um mineiro, mais uma nascente transbordante, mais uma nuvem rara. Por fim, estava ele de novo cercado por Minas, para além das minas e montanhas, além do minério, pelas águas que iam e vinham sem pedir licença - sempre elas.


Quando o silêncio finalmente calou a sala, não encontrou mais Lucio. Algo mudara. O ar ainda cantava o rastro do Capitão Magela, do Nego Dito, e ele, em pé diante da TV agora vazia, sentia o frio da janela insinuando como num cochicho, que em algum lugar, no alto da serra, a chuva começara de novo. Era um frio úmido, o mesmo que precedia as tempestades em Setiba. A voz de Beleléu na TV, grave e rítmica como uma braçada larga, o arrasto. Antes que o silêncio se instalasse por completo, a memória irrompeu e Lucio não estava mais na quitinete de 30m²; ele estava novamente na arrebentação, aos 12 anos, sentindo o sal queimar os olhos enquanto o pai se tornava um ponto distante no azul.



  • Arrasto


Saíra da casa dos pais há anos, lastreado por um salário robusto oriundo de anos de esforço na universidade, fomentados por aquele arquétipo de sucesso classe média vendido como a fórmula da realização pessoal. Retrato de seu tempo. Adernado, embora não totalmente sedado, continuava achacado por pruridos, pinicões a sublinharem suas manias, seu quase sestro a deixar as madeixas - antes com seu viço natural - com aquela textura cerosa, fio a fio, como se a fenda aberta em sua memória estivesse a selá-los com o próprio cansaço.
As vezes nada importava. Não importava a quitinete, moderna e confortável de quase 30m2. Não importava o carro na garagem, a sauna, a piscina aquecida e a academia do prédio, o rooftop gourmet, nada. O copo ainda meio vazio… ou meio cheio. Algo não colava com suas roupas lavadas na lavanderia coletiva abusando do amaciante caro, perfumado, seu estilo despojado misturando roupas de marcas famosas com bijuterias baratas da feira hippie; não colava aquele ar de independência yuppie que atraia mulheres para a toca, se  seu sorriso insípido na despedida desnudava as lacunas de sua alma. Ainda não amara de verdade. Insosso, tivera também o paladar agnóstico para com as damas com quem deitou e gozou. Enfim, nada de fato tirara ainda aquela sensação psicopática de ausência, de descaso, da asfixia que o remetia de volta às vezes ao nado de Setiba a ilha de Cambaião, no encalço do pai. Revia em minúcias então os 3 km de desespero da ida, o cansaço, as correntes marítimas a despistá-lo, a água de novo levando e lavando sua perspectiva trôpega do mundo. Subitamente paralisado, exausto, ainda mirando o pai afastando-se como um vapor do Mississipi em braçadas feito as rodas de pás do barco na imensidão do azul, afundou silencioso. Emergiu logo depois por instinto e esquivando-se dos gritos de socorro, deitou-se no mar arfando a esperança de reencontrar forças antes do afogamento, como ensinara  o pai. Mais que isso, o pai confiara-lhe aquela lição, dai a convicção indelével para negar a gravidade de Newton pela primeira vez. Viriam outras. Aceitá-la teria sido fácil demais, e Lúcio sempre fora assombrado pelo desrespeito pela autoridade, vinda ela de onde viesse. Retomou depois e nadou mais uns 15 minutos até a enseada de areia branca, acolhido pelo abraço do velho que não mais escondia o alívio, o riso nervoso da ressaca que vem depois do desespero e antes das congratulações. 
Na volta, ironicamente, compartilhariam do orgulho mútuo, algo que hermeticamente supriria ambos da força para cruzar os 3 km de volta entre Cambaião e a praia de Setiba numa só pegada. Na praia, a mãe trêmula não segurara mais o pranto, o medo. Aquela hora parecia ter dragado anos de sua vida. Muito certamente acontecera isso mesmo.
Tudo aquilo aos 12 anos de idade, 16 anos antes, quando um era o herói do outro, tacitamente, sem que pronunciassem uma sílaba sequer.
 
A ausência de sentido, de sabor, de propósito que fosse, persistia. Embora ateu, depois de seu encontro derradeiro com o Cícero no colégio Anchieta,  fazia vista grossa à contradição da crença em um propósito sem a fé em um Deus. Tese aliás que quedava invalidada pelo Lord Russell do qual também se nutria ao navegar a filosofia. E embora suas contradições arranhassem, não haviam ainda causado o sangramento ou incômodo suficientes para tirá-lo daquele vórtice. Até que Beleléu surgisse na TV, trazendo de volta Ataulfo, o Capitão Magela, alguém que conheceu nas noitadas do Fino da Roça com seu violão e estilos barranqueiros. Aquele mulato cheirando à água do velho Chico, descorado como uma roupa lavada mil vezes, batida contra as pedras do rio pelas lavadeiras das barrancas. As mesmas pedras que um dia levá-lo-iam de volta, o Capitão, após mais um mergulho casual. Via Magela às vezes como o boto do Amazonas, mas em Minas, no velho Chico, transmutado de boto a carranca de Zumbi, de Ataulfo, do Nego Dito, talvez. E tudo aquilo ferveu sua caixola, consequência do gradiente de pressão ou da turbulência das águas?, da força centrífuga da vida, do atrito viscoso dos dias?, o arrasto? Fosse o que fosse, Itamar puxara o gatilho. 

De férias e sem preocupações imediatas com agenda ou compromissos, mesmo sem planos, ou talvez por isso mesmo, decidiu gastar os outros 23 dias à toa perambulando por Minas. Como um Geraldo Viramundo, o mentecapto de Sabino com quem sempre compartilhara semelhanças, iria talvez ao encalço de Riobaldo, no sertão mineiro de Guimarães. Ou faria da Estrada Definitiva no Vale seu caminho de Santiago. Sabia apenas que "em algum lugar, no alto da serra, a chuva começara de novo". As águas iam e vinham sem pedir licença... de novo, sempre elas.


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