I - Jusante
Remanso
Passava pela sala deixando o rastro do deslize pela geladeira quando foi fisgado. A voz, como um trovão numa nuvem carregada, cativava pelo sotaque paulista/sulista de dicção teatral, como tudo mais naquele personagem. Na tela, um homem negro de terno e óculos escuros à noite singrava a entrevista. Lucio orbitou a TV - sempre ligada à míngua a preencher a solidão na quitinete com vozes emprestadas - como quem cai num remanso de rio, aquele silêncio enganoso que esconde a força da correnteza logo abaixo.
Enquanto seus dentes cravavam na carne da maçã argentina, a mão direita, em um gesto autômato, subia ao couro cabeludo num sestro. Era a cicatriz invisível de um tombo de bicicleta na infância, quando a sensação de ter o crânio partido abriu uma fenda por onde suas idiossincrasias também passaram a vazar. Como uma tranca que desafia o juízo, ele tateava o osso checando de novo, e de novo, como em todas as vezes que era raptado por pensamentos.
O homem na TV era Itamar. Itamar Assumpção, o Nego Dito, o Beleléu, uma entidade que parecia transbordar em si mesma. Itamar dizia então que, prestes a afogar-se em seu próprio excesso, fora içado por Ataulfo Alves. Aquele trabalho vinha então como o bote salva-vidas no qual interpretava vinte das mais de 320 canções do filho do “Capitão” Severino, de Miraí. Naquele instante, tomado por um deslocamento de ar intrujão vindo da janela, Lucio foi empurrado para outro “Capitão”: “Capitão” Magela, de Pirapora. Mais um mineiro, mais uma nascente transbordante, mais uma nuvem rara que cruzara seu caminho na juventude. Sua mente via de regra era tomada por pensamentos intrusivos, digressões sem controle que inundavam a retina embaçando sua clareza. Felizmente, tal modo de pensar nunca havia comprometido sua capacidade de dirigir um carro... ao menos ainda. Por fim, estava ele de novo cercado por Minas, para além das minas e montanhas, além do minério, pelas águas que iam e vinham sem pedir licença — sempre elas.
Quando o silêncio finalmente calou a sala, não encontrou mais Lucio. Algo mudara. O ar ainda cantava o rastro do Capitão Magela, do Nego Dito, e ele, em pé diante da TV agora quase vazia, sentia o frio da janela insinuando-se num cochicho: em algum lugar no alto da serra, a chuva começara de novo. E, como nas veredas do cerrado no Vale, há tempos, as lembranças irrompiam seu cotidiano e enchiam sua caixola, sem permissão nem aviso. O frio úmido — o mesmo que precedia as tempestades em Setiba quando, acampado com a família, era emboscado pela água a desafiar a lona do camping — voltava à baila, trazendo o cheiro da grama molhada fundida à maresia. A voz de Beleléu na TV, grave e rítmica como uma braçada larga, o arrasto. O silêncio abrupto depois a abrir as comportas e transladar Lucio, numa espécie de transe, para fora da quitinete de 30 m². Arrebentação. O sal a queimar os olhos enquanto o pai se tornava um ponto distante no azul. O empuxo mantendo-o com o nariz ainda erguido, ávido para sorver o ar.
Arrasto
Saíra da casa dos pais há anos, sustentado por um salário musculoso oriundo do esforço na universidade e da promessa de que o sucesso financeiro seria a exata medida da realização. Adernado, no conforto de sua independência financeira, sentia pruridos, pinicões como flashes de seus sonhos deixados como seixos pelo caminho, todavia. Seu sestro então voltava automático, deixando o cabelo oleoso como se a fenda aberta em sua memória derramasse a nódoa do que poderia ter sido diferente. Cansaço.
Às vezes nada importava. A quitinete moderna de trinta metros quadrados no Batel, zona sul de Curitiba, o carro do ano na garagem, a piscina aquecida ou o rooftop gourmet do prédio perdiam o sentido. O copo permanecia meio vazio. Algo não colava com suas roupas lavadas na lavanderia coletiva, abusando do amaciante caro, ou com seu estilo que misturava marcas famosas e bijuterias da feira hippie. Desmanchava-se aquela pose de independência que atraía mulheres para a toca, pois seu sorriso insípido na despedida desnudava as lacunas da alma. Ainda não amara de verdade. Insosso, mantinha um paladar agnóstico para com as damas com quem deitou e gozou.
Enfim, nada de fato aplacava aquela sensação quase cirúrgica de ausência, o descaso e a asfixia do vazio. Estava de volta ao nado de Setiba à ilha de Cambaião, no encalço do pai. Revia em minúcias os três quilômetros de desespero da ida, o cansaço, as correntes marítimas a despistá-lo, a água de novo levando e lavando sua perspectiva trôpega da vida. Subitamente paralisado, exausto, mirando o pai afastar-se como um vapor do Mississippi, impulsionado por braçadas que imitavam as rodas de pás do barco na imensidão, afundou silencioso.
Emergiu depois por empuxo, ou instinto. Esquivando-se dos gritos de socorro, deitou-se no mar, boiando na esperança de reencontrar forças antes do afogamento, como ensinara o velho. O pai dera-lhe aquela lição, daí a convicção para negar a gravidade de Newton pela primeira vez, teimosia e orgulho. Viriam outras. Aceitá-la teria sido fácil demais, e Lucio sempre fora movido pelo desrespeito ao poder da força, como compensação ao murro necessário que nunca conseguiu desferir nas brigas, por incompetência e medo. Era seu jeito tardio de combater o que considerava covardias. Retomou o fôlego e nadou mais vinte minutos até a enseada de areia branca, acolhido pelo abraço do pai que já não escondia o alívio, seguido do riso nervoso da ressaca que vem depois da vergonha e antes das saudações.
Na volta, ironicamente, compartilhariam um orgulho mútuo, algo que secretamente supriria ambos da força necessária para cruzar os três quilômetros de retorno em uma só pegada. Na praia, a mãe trêmula não segurou o pranto. O medo daquela hora parecia ter dragado anos de sua vida. Tudo aquilo aos doze anos de idade, dezoito anos antes, quando um era o herói do outro, tacitamente, sem que pronunciassem uma sílaba sequer.
A ausência de sentido persistia. Embora ateu, fazia vista grossa à contradição da busca por um propósito, sem o lastro da fé em Deus. E embora suas contradições arranhassem, não haviam ainda causado o sangramento necessário para tirá-lo daquele dilema.
Até que Beleléu surgisse na TV, trazendo de volta Ataulfo e o Capitão Magela, alguém que conheceu ao violão nas noitadas do Fino da Roça no bairro Funcionários em BH. Aquele mulato cheirando à água do Velho Chico, descorado como roupa lavada nas pedras das barrancas. As mesmas pedras que um dia levariam o Capitão de volta, após um mergulho casual. Outro paradoxo. Via Magela como um boto mágico transmutado em carranca de Zumbi, ou de Ataulfo, do Nego Dito, todos sentados na beira do mesmo rio. E tudo aquilo ferveu sua cabeça, outra vez. Consequência do gradiente de pressão ou da turbulência das águas? Da força centrífuga da vida ou do atrito viscoso dos dias? Do arrasto? Fosse o que fosse, Itamar havia puxado o gatilho.
De férias, e sem preocupações imediatas com agenda, ainda sem planos, decidiu perambular por Minas como um Geraldo Viramundo. Sabia que "em algum lugar, no alto da serra, a chuva começara de novo". As águas iam e vinham sem pedir licença... sempre elas.
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