quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

 CANTO VI

Reações Oblíquas


Olá, querido Cartesiano Torto, como está? Sentiu saudades? Pois bem...

 

De qualquer forma, é chagado o momento de cantar; ou − ao menos −, de tentar costurar harmonias... ainda que por cantarolares chinfrins e tortuosos (como sempre). Antes, porém, um pequeno recado a toda multidão de leitores ávidos que acompanham, por aqui, nossos sonoros cantos:

 

prezados, a bem da verdade, a indagação a respeito da saudade foi somente uma brincadeira; estratagema para iniciar o texto. Em outras palavras, estou certo de que o provecto Cartesiano que escreve comigo pouco se aguenta quando o assunto é a saudade que ele sente de mim. A estima do Cartesiano é tanta que, se passamos muito sem conversar – garanto −, o homem grisalho perde até algo de sua vitalidade – a cor de sua tez muda e seu ânimo reduz −. Imagino que deva perambular por sua casa envolto em suspiros, com caminhar soturno e encurvado enquanto aguarda as estimulantes missivas deste jovem poeta metido também à ensaísta [by the way, obrigado pelo Baudelaire]. A despeito disso, estivemos – os dois canalhas – juntos, de corpo presente. Quer dizer, em razão das festas de fim de ano, nós dois, que moramos em estados distintos, encontramo-nos pessoalmente. Só a título de curiosidade – e também para servir como marcador de tempo −, enquanto escrevo as primeiras linhas do CANTO VI, nosso querido Cartesiano dirige pelas BR's deste nosso país seguindo para o Sul, rumando para sua casa. Pois então, diante das circunstâncias de  final de ano (e suas festas familiares), tivemos ocasião de reduzir algo da saudade; mas está bem, não foi o suficiente; nunca é.

 

Um outro ponto: fiquei com a impressão de que nós dois não conseguimos conversar tudo o que “precisávamos”. Deixe-me explicar melhor: diante de tantas pessoas – que assim como eu, pouco estão com o Cartesiano, tendo oportunidade de vê-lo somente uma vez ao ano −, é complicado monopolizar/encadear um diálogo que trate de filosofia [mesmo a que gostamos por aqui, a saber: a provinciana, as elucubrações de boteco]. Nesse caso, procure imaginar, amigo leitor, o efeito provocado por sentenças tais como “Razão Prática”, “Razão Clássica”, Bourdieu ou Russell nos demais interlocutores presentes na ceia de natal. Ora, em uma das poucas vezes em que puxamos assuntos semelhantes aos elucubrados por aqui, escutei algo como “ah, lá vem vocês com essa filosofia... tenham dó, vamos logo parar com isso; falem de outra coisa”. Paciência.  No mais, incidentes desse tipo não são novidade nem para mim nem para ele. Laconicamente, somos mesmo Canalhas e – a depender de quem observa −, esquisitos, estranhos e inconvenientes... Fazer o quê? Cada um que converse sobre o que mais lhe apetece. Falando nisso, a tal de Virgínia ainda namora o Vini Jr.? Ou será que essa arrumação já deixou de produzir cliques?

 

Ora essa... é claro que há exagero no que digo – como sempre −. Com efeito, nossos familiares e amigos não são, assim, tão afeitos à filosofia, mas isso não nos impediu de conversar. Pois então, tivemos ocasião de palavrear, sim, algo de nossas reflexões; mas está bem, não foi o suficiente; nunca é.

 

Recado dado, vamos ao texto. Para tanto, que tal elaborar uma pequena cena? “No mais... gerais... ”.

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Imaginemos o seguinte cenário: primeiro, temos dois comerciantes, digamos, dois vendedores ambulantes que trabalham juntos. São eles: Sam e Jonathan. Mais que mercadores, ambos são grandes amigos que, por confiar no potencial de um produto – eles são “vendedores de novidades” −, empreendem juntos nos ramos do comércio. “Apanham” juntos, também, neste ramo. Quero dizer, como a mercadoria que buscam negociar é bastante nova, ao tentar vende-la às pessoas, recebem vários nãos e, com isso, experimentam – novamente juntos −, um desencorajador sentimento provocado por diversas negativas, bem como “portas na cara”. Com outras palavras, os clientes, ao que parece, não desejam e tampouco se importam com as tais “novidades” ofertadas por Sam e por Jonathan (este último é quem mais sofre com isso, justamente por ser mais sentimental). Segundo, como ninguém é de ferro, o fracasso em conseguir vender as “novidades”, aliado às sucessivas e intermináveis negativas – bem como portas batidas −, termina por esmorecer os dois amigos. No fim, aquilo que antes era uma grande aposta para ambos, acaba provocando cansaço, desanimo e briga... É muita mercadoria e pouca venda; quem poderia culpa-los. É muito dinheiro investido para tão pouco retorno e, então, diante do chão duro da realidade, diante da desilusão desencadeada pela falha em vender, Sam e Jonathan brigam, discutem e rompem – tanto o contrato de venda em sociedade como a amizade −. Pois é, o que foi uma grande ideia passa a simbolizar, então, um gigantesco fracasso.

 

Mas calma lá, comércio é assim mesmo. Ora essa, se ainda não deu certo, se a mercadoria ainda não “pegou”, não significa que a ideia deve morrer, que a(s) “novidade(s)” não prestam. Nesse sentido, talvez seja necessário um pouco mais de paciência, de perseverança e de resiliência... assim, quem sabe, a mercadoria deixará o estoque e cairá nas graças dos compradores; com isso, Sam e Jonathan mostrarão como são bons de ideia, como são bons de comércio, como, juntos, são excelentes vedores – além, é claro, de grandes amigos −. Mostrarão, entre outras coisas, que a amizade vale mais que uma pequena briga – mesmo que um tenha ofendido o outro, mesmo que um tenha berrado com o outro −. Que uma grande ideia, quando regada e cuidada, pode produzir a felicidade em consumidores que, inicialmente, nem sabiam o quanto desejavam aquilo que lhes é oferecido. Bom, ao menos é a essa conclusão a que chegam Sam e Jonathan. Assim, depois de brigar, depois de um ou dois berros, voltam a conversar amigavelmente. Num dado momento, enquanto falam das desventuras que vivenciaram juntos, Jonathan indaga a Sam: “Você acha que é justo machucar um homem em razão de um proveito maior?” (aqui, pense, por exemplo, em Maquiavel ou em Raskolnikov).           

 

Você acha que é justo machucar um homem em razão de um proveito maior? A pergunta é feita, assim, no meio do corredor de um prédio – Sam e Jonathan moram no mesmo condomínio, mesmo andar, vizinhos de porta −. É quase uma da manhã e, a despeito disso, os dois conversam de modo acalorado – como comentei, até grito houve no meio do palavrório −. “Você acha que é justo machucar um homem em razão de um proveito maior?” por outro lado, já foi uma frase dita com mais calma e em tom amigável... Tom amigável, sem dúvidas, mas já no início da madrugada e, lembre-se, no meio do corredor do prédio... ou seja, prato cheio para incomodar a outros habitantes. Incomodou! Esbravejando, um outro morador deixa o conforto de sua casa a fim de se juntar à conversa dos dois. Da porta do seu apartamento, o homem – trajado em seu pijama e com cara de poucos amigos −, chama a atenção destes dois inconvenientes: “isso são horas?”, ele pergunta. É Sam quem responde: “é que o amigo aqui perguntou se eu achava justo machucar um homem se, com isso, atingisse um proveito maior”. “Ah, parem com isso. Já passa das 1h e tem gente que precisa trabalhar de manhã, vão logo dormir”, diz o senhor de pijamas. “O senhor queira perdoar meu amigo” novamente é Sam quem responde, “É que ele está sendo meio filosófico”. O de pijama murmura algo, dá de ombros, vira as costas e bate a porta na cara dos vendedores de novidades.              

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Easter-eggs sem fim em minha pequena descrição... deixemos disso e vamos logo ao que importa. O cenário – para variar −, não é meu. Tirei (de memória) do tal En Duva Satt på en Gren och Funderade på Tillvaron (2014); Roy Andersson. Como puxei o trem de memória, penso que a cena não é exatamente como eu a descrevi, mais o essencial nela é por aí mesmo, não tem muito o que inventar. Se tento descreve-la, é em razão daquilo que ela representa, a saber: Você acha que é justo machucar um homem em razão de um proveito maior? E isso é lá pergunta que se faça? Para dizer de outro modo, será que a madrugada de um dia de semana é o espaço adequado para comentários filosóficos? Afinal, amanhã é dia “normal”, de trabalho, ora essa. Tem gente que precisa dormir!  De maneira semelhante, o  que adianta debater Razão no meio de um churrasco, em? Coisa mais chata esse negócio... e para quê? De que serve pensar nessas coisas? Em certo sentido, o filósofo que não tem cabeça para os negócios precisa ser internado, e já! Justamente porque perdeu a capacidade de produzir algo que realmente valha para a sociedade de mercado. É a acumulação, é o materialismo, são os influenciadores que importam. Então, por isso, viva à sociedade do desempenho, viva os influencers, viva aos cliques e a quantidade exorbitante de dinheiro que o relacionamento da Virgínia é capaz de produz. No mais, filosofia sempre foi coisa de vagabundo mesmo, coisa de gente que não tem nada importante para fazer e, por isso, tem tempo para pensar (no caso grego, sociedade hierarquizada que permitia o ócio àqueles abençoados pela Fortuna). Dane-se o pensar e viva à mercantilização/publicização das vidas privadas/alheias e viva o seu presentismo! Afinal, pensar não é bom e nem produz nada... ao menos, nada que valha.      

(...) a superficialidade da vida moderna, com seu materialismo desenfreado, levaria à rejeição do pensamento, da reflexão, da complexidade. Para Andersson, os indivíduos modernos temeriam justamente experiências que perduram e fazem pensar, o que talvez explique a simples rejeição ou os usos descabidos, inconsequentes e superficiais de referências filosóficas ou literárias. (...) O controle obsessivo do tempo talvez possa ser compreendido como um temor excessivo à morte, o que pode ser, por sua vez, explicado pela recusa da filosofia e da poesia como formas de discurso centrais para tematizar a historicidade e a finitude humana.

HISTORIADOR, FOTÓGRAFO DA MORTE; Douglas Attila Marcelino.  


No mais das vezes, o melhor mesmo é fazer sem pensar. Na vida, precisamos também acionar o modo automático... pensar não é bom”. Pois bem, Cartesiano, tal sentença me foi dita por um psiquiatra. Um homem da ciência e pautado na razão... disse-me que o melhor era mesmo viver no modo automático; depois disso – naturalmente −, troquei de médico! Não me leve a mal, querido, a coisa não é assim tão oito ou oitenta: bem sei que pensar por pensar, não dá mesmo muita coisa; afinal, a fé sem obra é morta. Mesmo assim, ouvir de um médico (de quem “deveria” auxiliar, por meio das drogas certas, minhas crises de angústia) que o melhor seria viver no modo automático... tenha dó, foi demais para mim. Eu, um amente da saberia e do pensamento aconselhado ao não pensar; cruzes! No fim das contas, somos mesmo entusiasmados por brumas de pensamento, amantes/amigos da sabedoria; filósofos, sim; mas não somos sábios. Podemos almejar à sabedoria e, por isso, permanecer próximos a ela – e afastados de qualquer um que nos aconselhe o não pensamento −, mas sábios, isso já é outra coisa. E é outra coisa porque, ser sábio... nossa!, o buraco aí é muito mais embaixo. Para dizer de uma vez, assim como Russell, lamento que nós, primatas falantes, sejamos incapazes de alcançar a razão. Mesmo assim, não pensar? 

Onde está o sintoma? Onde está a patologia? Ele sofrerá de fato, morrerá de fato, e jamais será amado, com toda evidência, como o teria desejado. E então? Resta-lhe enfrentar isso, aceitar isso, superar isso, se puder, em vez de fugir. Sofre com isso? Mas onde se viu que todo sofrimento seja patológico? Que todo sofrimento seja nefasto? Ele o é, se impede de viver ou agir. Mas se ele ajuda? Se impele a isso? Se é fator de revolta ou de combate? Vai-se renunciar a pensar, porque isso angustia? A viver, porque isso causa medo? A amar, porque isso causa dor?

− André Comte-Sponville.  

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Caro Cartesiano, preciso confessar-lhe o seguinte: enquanto redigia o canto IV, buscando alegorias a fim de melhor traçar concepções acerca do Sapiens racional (ou pouco racional), o fiz sem considerar qualquer que fosse o conceito de RAZÃO; em outras palavras, sem definir qual acepção do termo que utilizava durante a escrita da “epístola” (erro meu!). À vista disso, o senhor tem toda razão quando – com tamanha maestria e refinada ironia −, puxa aqui a orelha deste Cabeça de Santo que agora responde. Quero dizer, certamente faltou-me coerência e, como consequência, terminei por misturar Jesus com Geleia/Push e Puxe. Com efeito, e em busca de uma maior conformidade direi: nosso admirado Russell [tio e sobrinho o estimam], faz troça da pretensão humana e de sua pertença primazia racional, observando que o mundo real − com suas guerras, seus preconceitos, seus fanatismos e suas ideologias −, desmente a autoimagem de “Homem Racional”. A despeito disso, faz a crítica dentro do próprio campo do racionalismo clássico, e não fora dele. Concluindo (corrija-me caso eu esteja a escrever abobrinhas), Bertrand Russell permanece acreditando na razão universal e é fiel/coerente com isso... porém, lamenta que os humanos não estejam à altura de tal concepção de razão. Melhorou?

 

Que você tenha encaixado minhas palavras no conceito da Razão e Habitus em Bourdieu, faz todo sentido [também pudera... O Cartesiano es fueda; o Cartesiano es fueda pakarai; puta que pariu, o Cartesiano]. Enfim, para o autor que você trouxe a nossa conversa, não existe razão fora da prática social — toda forma de pensar e agir está, por isso, situada em contextos históricos, em relações de poder, em corpos que vivem e aprendem no mundo −; concordo. Não creio, inclusive, que seja possível dissociar uma coisa da outra, e logo falarei mais sobre isso. Explicando: Razão Universal (que eu ainda acho que é coisa de europeu, assim como a disciplina para qual dedico minha vida), funciona e é mesmo belíssima no papel; bem como, para explicar o movimento dos corpos, a gravitação dos planetas, o resultado de equações matemática e suas implicações; a produção de insulina e/ou as curvas aparentes da nivelação de dopamina durante o processo de adaptação a alguns ansiolíticos. Todavia, dê-me novamente sua mão e venha comigo, Cartesiano... deixe-me tentar elaborar algo por aqui. Veremos se assim entramos em concordata com relação aos termos, sem que palavreemos feito rotos ébrios, embolando línguas a amalgamar alhos com bugalhos.

 

Dizem por aí que quando Freud – já reconhecido/famoso – e Jung estavam em viagem aos Estado Unidos (convidados por universidades), aquele disse a este o seguinte: mal sabem eles que ao nos convidar, convidaram também sua própria inquietude... nós estamos indo e lavamos conosco a Peste! Isso dito, pergunto, de qual Peste fala o nosso vovô da psicanálise? Bem, respondo, o médico austríaco está chamando atenção para o fato de que nós, seres humanos racionais, não somos “donos da nossa própria casa”. Dito de outra forma, “quase” não controlamos nossas ações, nosso pensar e, por conseguinte, nosso agir. Assim, transmitir a Peste é – eu imagino −, lançar luz às circunstâncias/existência do Inconsciente... Inconsciente que nos faz reféns; Inconsciente extremamente maior e mais potente que qualquer pequena fresta de consciência que, porventura, vez por outra mostra-se a nós e àquilo que nos é dado perceber. Portanto, bem no momento histórico em que o pensamento ocidental mais arrotava controle, Freud vem colocar o dedo na ferida e indicar a submissão de todo ser a algo aterrador, ou seja: o Inconsciente. E, naturalmente, a falta de controle assusta mesmo; amedronta, apequena, desespera. Pera lá... acho que já assisti a esse filme antes.

 

Acontece que nos idos do XVI para o XVII – período de enorme transição −, três indivíduos – para dizer o mínimo, inconvenientes − já transmitiam ao mundo ocidental A Peste (não a que veio depois, com Freud; mas ainda assim, Peste). Carregaram-na, fizeram-na disseminar e... que a sociedade lide com a infecção, bem como com as consequências advindas dela (cada qual que descasque o seu próprio abacaxi, lidando com o desamparo da forma que melhor aprouver). Nesse caso, Nicolau [que tinha uma flauta e sua flauta era de pau; e seu pai sempre dizia...] Copérnico, Giordano Bruno e Galileu Galilei foram os portadores do desastre. Incautos, retiraram os Sapiens do centro do universo, arrancando deles [de nós] qualquer que fosse o caráter de “criatura especial”, engendrada/arquitetada por um procedimento que é fruto de um Criador e compõe Sua Criação. Ora essa, que um deles tenha terminado na fogueira e outro – seguindo os devidos processos legais da época −, preso in perpetuum na sua própria casa, enfim, é outra conversa. Nesse momento, perceba o seguinte: foi a razão (universal/clássica) quem permitiu a tais pensadores as conclusões a que chegaram. No entanto, as implicações/os desdobramentos de tais resultantes, seus efeitos diante do horizonte de expectativa de suas respectivas épocas – nesse caso −, já é outro tipo de razão (ou não razão). Acaso, fortuna, contingencia, vicissitude... Ao fim e ao cabo, “Hiroshima e Nagasaki não foi culpa da quebra do átomo”, mas é válido separar uma coisa da outra? 




Somos, meu querido tio, teimosos e insistentes. A propósito, foi você quem me ensinou (puxando Millôr Fernandes) que “dessa vida, só me tiram morto”; mantra que − tal como você − passei também a entoar e a cantarolar. Sendo assim, digo que abraçar o absurdo, pular de ponta nos oceanos da contingência e do acaso, não é o mesmo que cruzar os braços e – uma vez que não tenho escolha, já que não sou eu o dono de minha própria “casa” −, deixar a vida passar como se eu nada pudesse fazer diante do silêncio do mundo. Abraçar o Absurdo, nessa perspectiva, já é uma escolha e também uma reação a tal silêncio! Reagir através da lucidez, encarar o caos que nos assombra, reagir! Escolher ainda que “sem escolha”! Contraditório? Nesse caso, deixo cantar o nosso saudoso conterrâneo: “Ó meu Pai, dá-me o direito de dizer coisas sem sentido; de não ter que ser perfeito. Pretérito, sujeito, artigo definido (...). Virar os dados do destino, de me contradizer, de não ter meta. Me reinventar, ser meu próprio Deus; viver menino, morrer poeta ”.  

A felicidade deve menos à coragem do que à sorte; menos, mesmo, à sabedoria do que à sorte. A etimologia diz, a vida o confirma: ser feliz é sobretudo ter a felicidade (a sorte) de sê-lo. Não que a vontade não mude nada, nem a razão. Mas a vontade não pode tudo; a razão não pode tudo. E quem escolhe tê-las em maior ou menor grau? Quem escolhe a si? O acaso decide: é isso a que os gregos chamavam o destino, a que chamamos a sorte quando ela sorri. Que ela não basta, cada qual o sabe, mas quem poderia passar sem ela? A vida decide: o horror decide.   

− André Comte-Sponville.  

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No ponto de vista deste Canalha Lúcido, meus quadros (supracitados), estão em comum acordo com o seu:

[(i) Debate (ou dialética entre dois canalhas; ou ainda maiêutica provinciana): intercâmbio intelectual e rigoroso que envolve o confronto e a discussão de argumentos coerentes e embasados (...)].

 

Assim também, imagino (e espero) não estar me “[absolvendo/dispensando] das consequências ou [atenuando] a frustração de [meus] tropeços. [Remetendo-me, destarte] à tese central do síndico da MPB [em que] "tudo é tudo e nada é nada". Pelo contrário: Razão Universal/Clássica ou Razão Pura/Habitus? proponho: ambas! Amálgama, mistura! Com efeito, não enxergo mesmo a possibilidade de afasta-las. Quer queira, quer não, toda ciência é política... ainda que não tenha sido intenção de Einstein contribuir para o genocídio de tantos civis. [Portanto, rótulos como ocidental, eurocêntrico, americano, branco, rico, colonizado, utilizados no introito, nada mais seriam que mera erística para invalidar o oponente de saída.] Discordo com absoluta veemência. Em momento algum meu intento foi o de invalidar e/ou descredibilizar os feitos destes pensadores através de qualquer epíteto. O que busquei fazer “com tantos rótulos”, é um exercício de lucidez (trata-se também do Não Dito; conceito do historiador Michael de Certeau; A ESCRITA DA HISTÓRIA; Cap. 01).  Quero dizer, o que tem que ver o fato de Russell ser Francês e Conde? Que tem isso com sua obra filosófica? Tenha dó, Cartesiano, você não vê mesmo relação? (Eu sei que vê. Mas você dirá, talvez, E daí?). Daí, que faz diferença! Claro, não invalida e nem diminui sua obra, mas a acaso que colocou Bertrand Russell em seu lugar é sim relevante, e deve ser considerado. Ora, crescer em uma casa cheia de livros... ter acesso a eles... não se preocupar com suas refeições (moro sozinho, meu caro, e isso − alimentar-se com qualidade −, é um dos maiores desafios de minha vida adulta). Me pego pensando se, ao se levantar pela manhã, a mesa do café do Conde Russell já não estava posta, esperando-o. Só isso já faz diferença. Já imaginou que delícia? Levantar-se pela manha e ter uma mesa de café posta, caprichada e feita com zelo? Sonho meu!

 

E então, deu para acompanhar o porquê dos rótulos (ou dos não-ditos)? Bem, com relação aos seus pontos, preciso ainda comentar o seguinte: [(i.1) Foco na questão fundamental, qual seja]: rapaz, isso será, para este humilde Canalha, um enorme desafio. Com poucas palavras, eis que minha cabeça pensa por digressões... cheia de aberturas, desvãos e curvas... sendo bastante complexo seguir uma linha “reta”; daí uma das razões que explicam minha predileção pelos ensaios. Por fim – já escrevi para um demônio, penso que já basta para um canto só −:

 

[Se sim, mistura ciência com pseudociência (de fins politico-ideológicos [imagino que tenha dado para notar que eu não consigo separar os dois]) e pior, coloca o caro Cartesiano aqui como um seguidor cego e obtuso só de fórmulas e equações.]: ora, eu jamais pensaria tamanha asneira; só estava mesmo cutucando meu par, também Canalha, porém grisalho. De todo modo, te amo demais para conceber de você tais excrecências, Estratego. Só não fico repetindo isso porquê, nesse caso, você ficaria mais convencido e arrogante do que já é! Logo, amo muito você, mas a quem perguntar, negarei...

Mas nem tanto...


Com carinho, um beijo florido.

− Canalha Lúcido.      

 

  

 


 

Livro

Illustration created with the help of AI (Gemini)



I - Jusante 

Remanso


Passava lânguido pela sala ainda deixando o rastro do deslize pela geladeira em busca de provisões, quando foi fisgado. A voz era um trovão baixo, soturna, pontuada por um sotaque sulista que parecia carregar o peso e a forma de nuvens raras. Na tela, o homem de terno e óculos escuros à noite não apenas falava, remava o tempo. Lucio orbitou a TV como quem cai num remanso de rio — aquele silêncio enganoso que esconde a força da correnteza logo abaixo.

Enquanto seus dentes cravavam na carne da maçã argentina, a mão direita, em um gesto autômato, subia ao couro cabeludo num sestro, uma cicatriz invisível de um tombo de bicicleta na infância, quando a sensação de ter o crânio partido abriu uma fenda por onde suas idiossincrasias também passaram a vazar. Como uma tranca que desafia o juízo, ele tateava o próprio osso, checando de novo e de novo se ainda era sólido em meio àquela inundação sonora.

O homem na TV era Itamar; Itamar Assumpção, o Nego Dito, o Beleléu — uma entidade que parecia transbordar-se em si mesma. Itamar dizia que, quando estava prestes a afogar-se no próprio excesso, foi içado por Ataulfo Alves, e aquele disco vinha como o bote salva-vidas onde cantava umas poucas das mais de 320 canções do filho do “Capitão” Severino, de Mirai. Naquele instante, Lucio foi tomado por um deslocamento de ar intrujão vindo da janela, que num átimo, empurrou-o para outro “Capitão, “Capitão” Magela, de Pirapora. Mais um mineiro, mais uma nascente transbordante, mais uma nuvem rara. Por fim, estava ele de novo cercado por Minas, para além das minas e montanhas, além do minério, pelas águas que iam e vinham sem pedir licença - sempre elas.


Quando o silêncio finalmente calou a sala, não encontrou mais Lucio. Algo mudara. O ar ainda cantava o rastro do Capitão Magela, do Nego Dito, e ele, em pé diante da TV agora vazia, sentia o frio da janela insinuando como num cochicho, que em algum lugar, no alto da serra, a chuva começara de novo.



Arrasto


Saíra da casa dos pais há anos, lastreado por um salário robusto oriundo de anos de esforço na universidade, fomentados por aquele arquétipo de sucesso classe média vendido como a fórmula da realização pessoal. Retrato de seu tempo. Adernado, embora não totalmente sedado, continuava todavia achacado por pruridos, pinicões a sublinharem suas manias, seu quase sestro a deixar as madeixas - antes com seu viço natural - com aquela textura cerosa, fio a fio, como se a fenda aberta em sua memória estivesse a selá-los com o próprio cansaço.
As vezes nada importava. Não importava a quitinete, moderna e confortável de quase 30m2. Não importava o carro na garagem, a sauna, a piscina aquecida e a academia do prédio, o rooftop gourmet, nada. O copo ainda meio vazio… ou meio cheio. Algo não colava com suas roupas lavadas na lavanderia coletiva abusando do amaciante caro, perfumado, seu estilo despojado misturando roupas de marcas famosas com bijuterias baratas da feira hippie; não colava aquele ar de independência yuppie, que atraia mulheres para a toca, com seu sorriso insípido de despedida, desnudando as lacunas. Ainda não amara de verdade. Insosso, tivera também o paladar agnóstico para com as damas com quem deitou e gozou. Enfim, nada de fato tirara ainda aquela sensação psicopática de ausência, de descaso, de falta de ar, como quando tentou cruzar a nado de Setiba a ilha de Cambaião, seguindo o pai. Lembrou-se pois foi daqueles 3Km de desespero na ida, o cansaço, as correntes marítimas, a água de novo levando e lavando sua perspectiva do mundo. Parou, voltou-se para o pai a afastar-se em braçadas rítmicas. Não pediu, nem gritou, deitou-se no leito do mar, boiando, arfando a esperança de reencontrar as forças antes do afogamento, como o pai ensinara . Mais que isso, o pai confiara-lhe isso, e era dai emergiria a convicção indelével que não o deixou sucumbir. Retomou e chegou à enseada de areia branca uns 15 minutos depois, para deparar-se com o abraço do velho que não mais escondia o alívio, aquela ressaca boa depois do desespero e antes das congratulações. Na volta, ironicamente, o orgulho mútuo supriria ambos da força para cruzar os 3 Km entre Cambaião e a praia de Setiba de uma só pegada, embora na praia, a mãe não segurara mais o pranto, o medo. Aquilo aos 12 anos de idade, 14 anos atrás, um o herói do outro, tacitamente, sem que pronunciassem uma sílaba. 
A ausência de sentido, de sabor, de propósito que fosse, persistia, todavia. Embora ateu, depois de seu encontro derradeiro com o Cícero no colégio Anchieta,  fazia vista grossa à contradição da crença em um propósito sem a fé em um Deus. Tese aliás que quedava invalidada pelo Lord Russel do qual também se nutria e conhecia a filosofia. Suas contradições arranhavam, mas não haviam ainda causado sangramento ou incômodo suficiente para tirá-lo daquele vórtice. Até que Beleléu surgisse na TV, trazendo de volta o Capitão Magela, quem conheceu e viu nas noitadas do Fino da Roça com seu violão e estilos barranqueiros. Aquele mulato cheirando à água do velho Chico, descorado como uma roupa lavada mil vezes, batida contra as pedras do rio pelas lavadeiras das barrancas. As mesmas pedras que um dia levariam de volta o Capitão, após mais um mergulho casual. Via Magela às vezes como o boto do Amazonas, mas em Minas, no velho Chico, nunca poderia ser um boto, a carranca de Zumbi dos Palmares, de Ataulfo, de Nego Dito, talvez. E tudo aquilo ferveu em sua caixola, fosse o gradiente de pressão ou a turbulência, fosse a força centrífuga, o atrito viscoso, o arrasto, a interação com a corrente principal, fosse o que fosse Itamar havia tirando-o do vórtice, da dimensão paralela daquele remanso. Estava de férias e nem tinha preocupações imediatas com agenda, e mesmo sem planos, por mais 23 dias à toa poderia embrenhar-se por se caminho de Santiago por terras mineiras. Como um Geraldo Viramundo, como Riobaldo, sei lá, só vislumbrou que iria. "Em algum lugar, no alto da serra, a chuva começara de novo."